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Do sonho à realidade: como a Red Bull se tornou um pesadelo para muitos torcedores em Salzburgo | Blogs

Paulo Otávio foi contratado pelo Wolfsburg nesta temporada

Paulo Otávio foi contratado pelo Wolfsburg nesta temporada
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Perseverança. Esse é um sentimento fundamental para milhares de jogadores de futebol. O mundo milionário de transferências e clubes gigantes é para poucos. O lateral-esquerdo Paulo Otávio conhece bem essa realidade.

Natural de Ourinhos, no interior de São Paulo, e revelado pelo PSTC, no Paraná, o jogador batalhou muito e se deparou com as ciladas da carreira de jogador. Deslumbrou-se, conseguiu se recuperar e acreditou no projeto que estabeleceu para si mesmo.

Após passagens por Athletico, Coritiba, Santo André, Paysandu e Tombense, aceitou o desafio de encarar a segunda divisão austríaca com o LASK Linz. Destacou-se e de lá rumou para a segundona alemã, com o Ingolstad. Até chegar ao Wolsfburg.

Recuperando-se de uma rara lesão no tornozelo, Paulo Otávio concedeu entrevista e falou sobre suas experiências no futebol.

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Como está a recuperação da lesão?
Tudo bem. Já estamos entrando na quarta semana de recuperação. Agora a tendência é o tempo passar um pouco mais rápido, com mais movimentação, mais estímulo. Logo, logo vai acabar e estarei de volta para ajudar a equipe.

Não foi uma lesão comum no futebol, ao menos não estamos acostumados. Como foi sua reação quando soube o tipo de problema?
É algo meio estranho, eu também não conhecia. Quando me falaram ligamento de sindesmose, pensei o que era isso. Aí me falaram que é o ligamento que segura a tíbia e a fíbula, já na junção com o tornozelo. Engraçado de tudo é que foi sozinho, até perguntei para o João, os outros jogadores, se meu pé tinha virado, porque foi muito rápido. E eles falaram que não, Paulo, que seu pé virou e quando você caiu todo mundo achou que você estava brincando. Os fisioterapeutas também, que estavam no campo, disseram que nunca tinham visto isso. Foi anormal. Quando fiz a ressonância, viram que tinha rompido tudo, mas por sorte não precisou de cirurgia e isso ajudou bastante. Agora é contar com a cicatrização e voltar para a transição o mais rápido possível. De dez a 12 semanas de recuperação.

E você vinha em uma boa sequência, como titular nessa retomada.
É um momento… Todo mundo me perguntou, sinto muito, que pena, mas eu tentei levar pelo lado positivo. Isso é parte de um processo, todo atleta de alto nível está sujeito a isso. Aconteceu em um momento que seria melhor que não acontecesse, mas dos males o menor. Na próxima temporada já começo desde o primeiro dia na pré-temporada, não perderei treinamentos. O importante é voltar top fit, como eles falam aqui.

Com a classificação de Bayern Munique e Bayer Leverkusen para a final da Copa da Alemanha, o sétimo da Bundesliga também vai para a Liga Europa, assim como o sexto. A vaga direta é melhor de qualquer modo, não é mesmo, até pelo prêmio?
Sim, deu uma facilitada realmente. A gente estava torcendo bastante para que essa final da Copa acontecesse. Isso foi importante porque agora abre outra vaga, a sétima, mas se classificar direto é melhor. Por causa da qualificação, como a Libertadores, em que tudo pode acontecer nessas fases de mata-mata. E em sexto o prêmio pode ser maior também.

Surpreendeu a demissão do Alfred Schreuder, técnico do Hoffenheim, equipe que briga com vocês pela sexta posição?
Ninguém entendeu nada. Estávamos na fisioterapida, que é quase a minha casa, conversando e o Wout (Weghorst) falou “nossa, o treinador do Hoffenheim caiu”. Daí todo mundo disse não, mas um fisioterapeuta estava vendo a televisão e disse “sim, saiu”, mas ninguém entendeu. Ficou passando muito tempo na televisão, porque foi uma surpresa. O time está brigando por uma vaga na Europa, vem bem, mas futebol é muito maluco, as coisas acontecem quando ninguém espera.

Sobre o seu técnico, Oliver Glasner, que lhe comandou no LASK Linz, te recomendou bem no clube, não é mesmo? Você foi contratado mesmo após o rebaixamento à terceira divisão com o Ingolstadt, na temporad passada.
Foi muito rápido o que aconteceu, porque eu cheguei na Áustria por empréstimos e depois foi tudo muito rápido. Ninguém acreditou quando eu disse que sairia da Tombense para jogar na segunda divisão da Áustria. Sempre pensei que, se estou na terceira divisão do Brasil, chego na segunda divisão da Áustria e estou um passo à frente de quem está aqui na terceira. Não importa se é segunda ou não, porque estarei no futebol europeu e todo mundo está olhando, por mais que seja uma segunda divisão. Consegui desempenhar um excelente papel naquele ano e ficou uma impressão muito boa. Eu saio para o Ingolstadt e nós continuamos em contato. Foram dois anos sem nos encontrarmos, ele me mandava mensagem, perguntava como eu estava… Nos últimos dez jogos o nosso time estava bem, e aí eu vi que ele assinou com o Wolfsburg.  Até brinquei com minha esposa, “putz, ele podia lembrar de mim agora, dar uma lembradinha no passado”, mas falei brincando. De repente, quando a gente joga o último jogo e tem o descenso, perde em casa nos playoffs, eu estava muito triste e meu celular toca. Era ele. “Paulo, eu sei que você está triste, sei que o momento é difícil, mas eu conto com você para a próxima temporada. Quer voltar comigo?”. Falei porra, você está perguntando, o que eu vou falar? Onde assino? Onde tenho que assinar? Isso aí foi muito importante. O papel que desempenhei lá atrás mostrou que ele poderia contar comigo e hoje estou aqui com ele.

A segunda divisão alemã é bastante equilibrada. Como foi a experiência de cair nos playoffs para o Wehen Wiesbaden?
O time que vem da terceira divisão, se você imaginar, teoricamente nós temos que ganhar. E ganhamos o primeiro jogo, fora de casa, por 2 a 1 e falamos “agora dá”. Só que quando chega em casa e a gente toma dois gols logo de cara, a pressão fica maior ainda. Estamos falando do Ingolstadt, que dois anos antes estava na Bundesliga, foi algo surreal. Faltavam dez rodadas e todo mundo falava que cairíamos direto, e começamos a ganhar todos os jogos. Quando chega no mata-mata, dois jogos só, depois dessa sequência, perdemos o último e caímos. Foi algo meio maluco.

Após três anos na Alemanha e um na Áustria, país que tem uma cultura muito parecida com a nação vizinha, está totalmente adaptado à vida na Europa? Feliz na Alemanha?
Sim, estou muito feliz aqui. É totalmente diferente do Brasil, mas a experiência que tive na Áustria mostrou, realmente, o caminho. Quando saí do Brasil, minha ideia era em quatro anos jogar a Bundesliga, e eu consegui chegar nesse objetivo. Nos meus dois primeiros anos eu não sabia falar alemão, só falava inglês. Quando cheguei no Ingolstadt, me disseram que eu teria que falar alemão, mas eu não conseguia. Daí me colocaram na escola, fazia aulas de 90 minutos duas vezes por semana e as coisas começaram a ficar mais claras, comecei a entender melhor as pessoas. Hoje falo alemão sossegado, isso ajudou bastante, e a partir do momento que constituí família também colaborou muito. Minha esposa tem me ajudado bastante, meu filho está crescendo cada dia mais. Posso dizer que sou muito feliz e realizado.

Sobre sua carreira, apesar da pouca idade (25), teve muitos clubes no Brasil. Começou no PSTC, no interior do Paraná, e de lá seguiu para Athletico, Coritiba, Santo André, Paysandu e Tombense. Como foi toda essa trajetória?
Foi algo meio estranho, porque sou paulista e tenho toda base no Paraná. Chego no PSTC com 13 anos, para jogar como atacante, mas quando vejo que tem cinco atacantes no time e eu não era muito de fazer gol, eu falei para o técnico que era lateral-esquerdo, quando ele veio falar comigo. “Mas você não é o atacante, que veio de Ourinhos, está como atacante aqui”, e eu disse que não, daí ele falou que eu teria que fazer teste. Fiz, deu tudo certo e depois no Athletico foram dois anos, tudo muito rápido também. Subo com 17 anos, com três meses de clube, e quando você está com Paulo Baier, Guerrón, Marcinho, só esses caras, achei que eu não precisava de mais nada. Aí é onde as coisas caem e onde estalei para a vida. Desço do profissional direto para o sub-18, e isso foi pior porque eu poderia descer para o sub-23, mas me mandaram direto para o sub-18. Passa o tempo, vou para o Coritiba, mas aí eu já tinha mais ideia de que, quando chegasse no profissional, não podia me deslumbrar, tinha que ralar muito. Dividi vestiário com Alex, Deivid, Keirrison, Lincoln, jogadores sensacionais. Aprendi bastante, sempre escutava os conselhos do Alex, do Júlio César, centroavante, mas fui aprender mesmo o que é o futebol no Santo André. Você sai de duas estruturas sensacionais no cenário nacional e vai para o Santo André, um time pequeno, que joga a Copa Paulista. Quando cheguei, os caras brincavam que agora eu ia entender o futebol, seja bem vindo à “cascudinha”, como eles falavam. Foi legal. Apesar da pouca idade, entre aspas, tenho algumas experiências bacanas.

Como foi a retomada do futebol na Alemanha e todos os cuidados com o protocolo da Bundesliga? Você se sentiu seguro na volta?
Eu me senti muito seguro. No começo, quando as coisas estouraram por aqui, eu realmente tive um pouco de medo. Tanto que minha esposa e meu filho foram para o Brasil. Com o passar do tempo, eles foram esclarencendo mais as coisas, o Governo esclareceu bastante tudo, a Bundesliga foi exigindo muitas coisas do clube e o Wolfsburg sempre foi muito prestativo com a gente. Então, ali, começou a criar uma segurança, uma contenção para que pudéssemos treinar e depois, consequentemente, jogar. Ficava sempre a pergunta: nós estamos fazendo o correto, o clube está se esforçando ao máximo, mas será que as outras equipes estão fazendo o mesmo? Só que a partir do momento que a liga começou a exigir de todos, quem não fizer terá que pagar, jogador que fizer algo fora da linha vai pagar e aí todas as coisas começaram a ser iguais, tudo muito rígido. Quando chegamos no primeiro jogo foi algo fora do comum. Chegamos no hotel e tem somente quatro pessoas para te atender. Tinha que fazer fila para pegar comida, a gente sempre brinca nessas situações, vai pegar pra mim, e ali cada um tinha que ficar a dois metros de distância. Para você pegar sua comida demorou quase meia-hora. Chega no estádio tudo vazio, nenhum torcedor esperando na rua, somente quem ia trabalhar no jogo. Ali você começa a sentir que está tranquilo para jogar. Quando acabamos o aquecimento, tenho o costume de sair correndo para o vestiário. Nosso supervisor chegar e fala “calma, calma”, Daí perguntei “o que aconteceu”, e ele disse que tínhamos que esperar toda equipe deles passarm depois nós. Aí pensei, “caramba, mudaram as coisas mesmo”. Dá para jogar futebol.

Qual é a sua opinião sobre as manifestações que estão acontecendo pelo mundo contra o racismo? A Bundesliga apoiou esse movimento.
Penso como algo muito positivo. Nós, como atletas, brinco que não sou muito espelho, porque não tenho a dimensão do que posso representar para uma criança, para alguém que nos assiste. Meus amigos falam que eu sou um espelho para muita gente. Os atletas maiores, como Cristiano Ronaldo, LeBron James e os jogadores que estão aqui há muito tempo na Bundesliga, representam uma classe muito forte na sociedade. Nós conseguimos formar opiniões, querendo ou não, por isso o nosso posicionamento é muito importante. Eu, particularmente, nunca sofri com isso. Já aconteceu de um amigo muito próximo me falar que quando entrávamos em shopping aqui, só havia eu negro, e as pessoas ficavam me olhando, porque não é algo “normal” para eles na Alemanha, que é um país bem branco, sendo bem ríspido nas palavras. Mas eles são muito envergonhados do passado, sendo bem sincero, eles não gostam do que aconteceu e condenam muito a violência e o racismo. Ainda deve ter, com certeza, porque tem em toda parte do mundo, porque é muito triste. Eu me posiciono muito a favor da vida negra. 

Fonte: Gustavo Hofman

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