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Maomé – a face oculta do criador do Islã

O profeta

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Estevan Silveira/Superinteressante

Maomé resignado, que tentava aplacar a consciência fazendo caridade e isolando-se nas montanhas, estava morto. Agora nascia outro homem: o Profeta vivo, que peitava os Quraysh sem medo, descendo a lenha na cobrança de juros e, heresia máxima, pedindo a libertação dos escravos. Começou libertando o seu, diga-se.

Mesmo com esse discurso, Maomé angariou seguidores entre os homens ricos de Meca. Provavelmente pela beleza das recitações, muitos realmente o viam como um novo Abraão, um novo Moisés. A começar por seu amigo Abu Bakr, o comerciante Quraish. Seu primeiro ato como seguidor de Maomé, inclusive, foi gastar uma fortuna comprando escravos de seus colegas comerciantes para libertá-los.

Some tudo isso ao fato de que a própria mensagem monoteísta de Maométambém tinha um potencial destrutivo: se aquele homem continuasse convencendo gente na Caaba de que os deuses ali dentro eram de mentira, os peregrinos que se convencessem poderiam não voltar mais. Péssimo negócio para os Quraysh, que controlavam o comércio em torno do santuário. Pois é. Tinha chegado a hora de tomar uma providência contra o recitador.

Mas não seria fácil, porque o número de seguidores dele só crescia. No começo, eram só Abu Bakr, Zayd, seu escravo alforriado, Khadija, claro, e o menino Ali, de 13 anos – um primo de Maomé. Mas agora era diferente. Ele somava centenas de fiés. Além disso, seu tio Abu Talib era próximo demais dos Quraysh. Isso ajudava a manter as espadas deles longe do pescoço deMaomé. Mas não por muito tempo.

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Quando Maomé tinha 50 anos, no ano de 620, Abu Talib morreu, deixando o caminho mais livre para os Quraysh. E pior ainda: Khadija também faleceu, aos 65. Sem suas duas maiores referências na vida, e ciente de que o pior se avizinhava, Maomé começou a tecer um plano para deixar Meca, mas sem largar seus seguidores. Líderes de outra cidade, Medina*, tinham convidadoMaomé para servir como haran, julgando uma disputa interna entre os clãs locais. O Profeta, então, orientou seus seguidores a se mudar para Medina, 300 quilômetros ao norte, sem alarde, para não chamar a atenção. Mas logo que os Quraysh perceberam o movimento decidiram agir. O temor agora era que Maomé estivesse formando um exército.

Foi aí que, em setembro de 622, decidiram matá-lo, lançando mão daqueles soldados “fortes e bem-nascidos”. Mas os cães de aluguel dos Quraysh tiveram uma surpresa. Quando arrombaram a casa do Profeta, quem estava na cama era seu primo Ali. Maomé tinha acabado de fugir para Medina, junto com Abu Bakr. Ali, poupado, logo mais se juntaria aos dois.

Esse dia da fuga se tornou tão importante para o islamismo que o ano de 622 ficaria marcado para sempre. Tornaria-se o ano 1 da nova religião. O ano 1 d.H. (depois da Héjira, “Fuga”, em árabe). E isso não aconteceria simplesmente porque o Profeta escapou da morte. Mas porque foi em Medina que Maomé fez sua maior obra: criou sua própria civilização.

Maomé agora era xeique. Longe de Meca, seus seguidores formavam uma tribo de fato: a Ummah (“comunidade”). Uma tribo que não era unida por laços de sangue, mas por uma ideologia. Ideologia que Maomé logo tiraria do mundo das ideias.

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Uma de suas primeiras medidas no campo das coisas práticas foi baixar a Selic. Ou quase isso. O Profeta achava que os juros extorsivos estavam no cerne dos problemas de Meca, certo? Então ele criou um BNDES em Medina: os membros da Ummah concediam empréstimo a juro zero para outros “afiliados”.

Outro problema que ele via em Meca era o monopólio dos Quraysh no comércio. Medina também tinha uma tribo que dominava o comércio, a Banu Qaynuca, de origem judaica. Ninguém podia vender nada em Medina sem pagar uma taxa a eles.

Maomé acabou com isso. Não na pancada, mas criando uma feira concorrente, que não cobrava taxa nenhuma. Nisso, ele quebrou o monopólio e forçou uma baixada nos preços. Capitalismo de raiz. De raiz mesmo: a Ummah abastecia seus mercados emboscando caravanas nos arredores de Meca.

Os saques também alimentavam outra novidade: um Bolsa Família. Todo membro da Ummah deveria pagar um imposto de acordo com suas posses, o zakat. E o dinheiro ia para seguidores mais pobres, que nem tinham como pagar imposto nenhum. Zakat significa “purificação”. Ou seja, o imposto tinha um sentido religioso: os mais ricos “purificavam-se” ao doar sistematicamente uma porcentagem dos seus ganhos. Mas vale lembrar:  a religião era tão intrincada com todo o resto da vida social que nem havia uma palavra para “religião”.

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E ainda houve as reformas jurídicas. A lei principal continuava sendo o olho por olho, mas Maomé introduziu uma mudança fundamental ali. “A retribuição por uma injúria é uma injúria igual”, diz o Alcorão, refletindo as leis tribais da Arábia. Mas tinha um complemento interessante ali: “Aqueles que esquecerem a injúria e buscarem uma reconciliação serão recompensados por Deus” (42:40). Além disso, a lei deixava claro que, dentro da igualdade da Ummah, não existiam fiéis “mais iguais”, como acontecia com a elite de Meca. Um bandido poderoso, portanto, deveria ter o mesmo tratamento de um ladrão pé-de-chinelo, pelo menos no papel.

Outra mudança importante foi no campo dos direitos das mulheres. Maométinha se tornado polígamo em Medina. Como qualquer xeique da época, tinha várias esposas e concubinas. Mas era natural que, como viúvo de uma mulher poderosa, ele também entendesse que mulheres não eram camelos. Então ele concedeu um direito importantíssimo às mulheres da Ummah: elas poderiam herdar propriedades, pela primeira vez na história das Arábias. Ele também proibiu que maridos se apropriassem dos dotes de casamento, pagos pelo pai da noiva no ato do casório. O dinheiro deveria ser mantido como uma poupança exclusiva da mulher, funcionando como um seguro em caso de divórcio.

Em suma: se Maomé ressuscitasse hoje, deveria ser chamado para dar palestras de gestão pública. Seu pacote de reformas deu tão certo que vários habitantes de Medina entraram para a Ummah. Até porque era fácil: bastava aceitar que só havia um deus e que Maomé era seu profeta, estar disposto a pagar o zakat e pronto: você se tornava membro da tribo do Profeta. Tribo que, conforme foi ganhando mais membros, começou a ser conhecida por outro nome: Islã (“subordinar-se a Deus”). E seus membros passariam a ser chamados de “muçulmanos” (“aqueles que se renderam a Deus”). Mas quem não tinha se rendido a nada eram os Quraysh, lá em Meca. Eles não tinham esquecido a ameaça que Maomé representava. Ainda queriam matá-lo de todo jeito.

A primeira batalha entre os Quraysh e a Ummah aconteceu dois anos depois da Héjira, em 624. Foi num daqueles roubos de caravana. O pessoal de Meca soube, via espiões infiltrados em Medina, que os muçulmanos iriam saquear uma caravana específica, que vinha da Palestina. Então colocaram um exército de mil homens para protegê-la. Maomé chegou com 300. Deveria ser o seu fim. Não foi. Talvez por excesso de confiança dos Quraysh, talvez por muito mais excesso de confiança dos muçulmanos, o fato é que Maomévenceu. Dali para a frente, seguiram-se anos de batalhas.

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Entre uma luta e outra, Maomé continuava tendo seus transes e recitando o futuro Alcorão. Os versos mais belicosos do livro sagrado são justamente dessa época. O mais conhecido é a surata (capítulo) 9, versículo 5: “Matem os idólatras, onde quer que eles estejam; capturem, acossem, embosquem”. O contexto real deste texto é o da guerra contra os Quraysh, que infiltravam espiões em Medina. “Idólatra” (ou “politeísta”, ou “infiel”, dependendo da tradução) não é qualquer um que não seja muçulmano. A palavra está ali para representar um inimigo específico, e de um conflito que aconteceu há quase 1.500 anos.

E isso não significa que o Islã tenha mais apreço pela violência que outras religiões. Algumas partes do Antigo Testamento parecem ter sido escritas por Quentin Tarantino, dada a torrente de sangue. E o próprio Cristo, que aconselhava dar a outra face em caso de agressão, chegou a dizer: “Não pensem que vim trazer paz ao mundo. Não vim trazer paz, mas a espada” (Mateus, 10,34). E isso não significa que o cristianismo pregue a violência. No caso do Islã, vale o mesmo raciocínio.

De qualquer forma, Maomé foi mais feliz que seus predecessores bíblicos quando empunhou sua espada: ele passou por cima dos adversários. Em 629, com os Quraysh cansados de guerra e o Islã mais forte do que nunca, o Profeta reuniu um exército de 10 mil homens e marchou para Meca. Acabou conquistando a cidade sagrada sem nem derramar sangue, já que o inimigo se rendeu na hora. Pronto. Com Meca sob seu controle, Maomé agora era o homem mais poderoso da Arábia. Um destino que parecia distante do menino que nasceu sem pai e perdeu a mãe tão cedo.

Seu primeiro ato foi libertar todos os escravos de Meca. O segundo, despejar os deuses da Caaba, destruindo as imagens deles e consagrando o santuário a Allah – a Pedra Negra ficou, para a alegria de quem gosta de meteoritos.Maomé também poupou as estátuas de Jesus e da Virgem Maria, os únicos personagens do Alcorão representados por imagens dentro da Caaba. Mas Maomé não se aproveitou do poder. Não corou-se “rei de Meca” nem nada. Voltou para Medina, que tinha se tornado sua cidade de fato, e morreu em paz, aos 62 anos, deixando 12 viúvas, 3 filhos, 4 filhas e uma nova nação.

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