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Steve Bannon: quem é o “operacional político mais perigoso da América” – Atualidade

Donald Trump toma posse a 20 de Janeiro próximo como presidente dos Estados Unidos, após ter anunciado formalmente a sua candidatura a 16 de Junho de 2015 e sido confirmado pelo colégio eleitoral a 19 de Dezembro. Pelo meio, Steve Bannon tornou-se o responsável da campanha eleitoral apenas em Agosto deste ano mas, quando festejou o seu 63º aniversário a 27 de Novembro, já estava escolhido para ser o principal estratega do novo presidente na Casa Branca. Mas quem é Stephen K. Bannon?

Ele passou de ser o operacional político mais perigoso para um dos mais poderosos, sintetizava o jornal The Telegraph. “A nomeação marca o auge de uma notável carreira que viu Bannon numa série de reinvenções Gatsby-escas – transformar-se da classe operária de homem da Marinha em financeiro na Goldman Sachs, produtor de Hollywood e, depois, rei dos media de direita da América”.

Nascido em 1953 em Norfolk (EUA) numa família católica irlandesa, pró-Kennedy e democrata, formou-se em 1976 na Virginia Tech em estudos urbanos (chegou a ser presidente da associação de estudantes) Bannon esteve alguns anos na Marinha, e prosseguiu a formação na Georgetown University. “Estudou assuntos internacionais e obteve um mestrado”, recordou Edward Masso, colega de Bannon nas operações navais. “Ele era incrível. Quantas pessoas têm um trabalho de 12 horas no Pentágono e depois vão à Georgetown University à noite? Para mim, isso diz muito sobre ele”.

Aos 29 anos, navegou para as águas da banca de investimento. Nos anos 80, quando o sector financeiro estava na moda, entrou na Harvard Business School, de onde foi recrutado para a Goldman Sachs, em Nova Iorque. Mudou-se mais tarde para Los Angeles, para se especializar no entretenimento, quando “havia uma forte consolidação” do sector, explicou.

A Leni Riefenstahl do movimento Tea Party

Saiu em 1990 para criar a Bannon & Co, empresa especializada no investimento em media, com colegas da Goldman Sachs. Conseguiu clientes como o banco francês Crédit Lyonnais, a MGM, a Polygram Records ou a Westinghouse Electric, que queria vender o estúdio de cinema e televisão Castle Rock Entertainment a Ted Turner. Durante as negociações, percebeu-se que o patrão da CNN não tinha dinheiro para a operação e a Westinghouse propôs que fossem eles a investir.

Isso aconteceu para cinco séries televisivas, incluindo “Seinfeld” – o que o leva ainda hoje a receber “royalties” dessa série e lhe garantiu uma “pequena fortuna pessoal”, garante a The Hollywood Reporter (THR).

A francesa Société Générale adquiriu a Bannon & Co em 1998 e ele interessa-se ainda mais por Hollywood, onde já tinha marcado presença como produtor em 1991, no filme “Titus”, com Anthony Hopkins. Mas é a partir de 2004 que se acentua esse trabalho. No total, foi produtor de 18 filmes e realizador de nove, nomeadamente de documentários sobre personagens como Ronald Reagan ou Sarah Palin. Neste caso, Bannon assumiu ter investido um milhão de dólares na produção de “The Undefeated”, realizado sem qualquer “apoio editorial do campo de Palin” – embora a versão áudio do livro da apoiante do Tea Party sirva de narração no filme.

Bannon assumiu também ser um “estudante” do realizador liberal Michael Moore, do russo Eisenstein ou da realizadora de propaganda nazi Leni Riefenstahl. O seu patrão Andrew Breitbart elogiou-o, “com sincera admiração, como a Leni Riefenstahl do movimento Tea Party”.

Andrew Breitbart foi o primeiro funcionário do polémico site Drudge Report, de Matt Drudge, e ajudou Arianna Huffington a lançar o Huffington Post. Em 2007, com o seu amigo advogado Larry Solov, fundou a Breitbart News Network (BNN), empresa que controla o site Breitbart News.

Bannon ajudou-os, nomeadamente no aluguer de espaço para as suas actividades e, quando Breitbart morreu em Março de 2012, Solov como CEO convidou Bannon para o cargo de director-geral da BNN. Assim começou a marcar presença na Breitbart Radio e a escrever editoriais no site – “algo raro para uma grande empresa de media”, considera Ben Shapiro, editor durante quatro anos do Breitbart e que se despediu por Bannon não ter apoiado uma jornalista do site, maltratada pela campanha de Trump.

“Se Ronald Reagan foi o Gary Cooper da política, Trump é o John Wayne”

O Breitbart News, com financiamento privado pouco conhecido, era “a plataforma da direita alternativa” (ou “alt-right”, como é abreviada), explicou Bannon em Julho passado, quando o site conseguia 17 milhões de visitantes únicos. Alguns dos seus artigos têm títulos como “Bill Kristol: Republican Spoiler, Renegade Jew” ou “Birth Control Makes Women Unattractive and Crazy”, acompanhado de outros como “The Solution to Online ‘Harassment’ Is Simple: Women Should Log Off” ou “There’s No Hiring Bias Against Women in Tech, They Just Suck at Interviews”.

Dos poucos textos que o Breitbart News dedica a Portugal, consta a denominação de António Costa, como “líder radical do Partido Socialista”.

Antes de Trump, o site servia para ataques ao presidente Obama e ao “establishment” republicano em temas como a imigração, comércio e “globalismo”, lembra o Wall Street Journal, antes de, no final de 2015, se tornar “uma máquina de propaganda de Trump” conhecida por “Trumpbart News” pelos seus críticos. “Se Ronald Reagan foi o Gary Cooper da política, Trump é o John Wayne”, escrevia o site em Novembro de 2015.

Shapiro também acusa Bannon de ter transformado o site no “Pravda pessoal de Trump” mas para seu próprio proveito, como sucedeu ao produzir “The Undefeated” para aceder ao círculo dos conservadores.

O site tem duas versões fora dos EUA, uma em Londres e outra em Jerusalém. Agora, anuncia-se que terá localizações para a França e a Alemanha, dois países com eleições marcadas para 2017.

Larry Solov confirma a abertura de escritórios nestes dois países, bem como a expansão das actuais delegações e um aumento dos actuais 115 empregados em todo o mundo.

A tarefa europeia da Breitbart News pode não ser fácil. Os jovens da Macedónia acusados de criarem sites de notícias falsas para lucrarem com a publicidade estão igualmente interessados nestas eleições, mas a Alemanha pretende ter legislação no início do ano para impedir a disseminação dessas “notícias” nas redes sociais.

Não será Bannon a dirigir directamente as operações, porque suspendeu a actividade na Breitbart News em Agosto passado, quando passou a dirigir a campanha eleitoral de Trump. Substituiu Paul Manafort, que se demitiu da campanha de Trump após ser acusado de ligações financeiras a um partido pró-russo na Ucrânia.

Mas ele pode acabar por ter uma posição mais influente noutro campo mediático. Devido a uma recente norma aprovada por Barack Obama, Trump terá a autoridade para nomear o presidente do Broadcasting Board of Governors, a agência norte-americana até agora independente que gere a Voice of America, Radio Free Europe, Radio Free Asia e Middle East Broadcast Networks – o “braço armado de propaganda” norte-americana presente em 100 países (incluindo os EUA), 61 línguas e uma audiência de 278 milhões de pessoas.

A América de Trump em directo no Twitter

Por outro lado, será difícil calar Trump. Este insulta os media tradicionais, enquanto opta pelas mensagens no Twitter. Entre dúvidas de uma “narrativa” não validada pelos meios de comunicação social ou “um novo tipo de transparência” para os americanos, “mais pessoal e autêntica”, há riscos no rápido impacto da rede social. Alguns exemplos:

– quando tuítou que não seria necessário um novo avião Air Force One, fez cair as acções da fabricante de aeronáutica Boeing;

– quando criticou o orçamento do programa de aviões de combate F-35, houve um efeito negativo imediato nas acções da fabricante Lockheed Martin.

– quando apontou a acção de um sindicalista, este foi imediatamente alvo de ameaças pessoais e à sua família;

– ou, numa situação paralela de que não é directamente responsável, quando um estudante filmou uma professora a criticar Trump e esta recebeu ameaças de morte.

Do lado positivo, quando desmereceu a revista Vanity Fair, por esta ter criticado o seu restaurante Trump Grill, a revista recebeu o “o maior número de assinaturas de sempre num único dia” e aproveitou para se considerar como “a revista que Trump não quer que leia”.

Como principal estratega na Casa Branca e conhecedor interessado nos media, Bannon terá uma palavra a dizer nestes dois cenários da voz pessoal de Trump e da voz da América.

Bannon foi uma das primeiras nomeações de Trump como presidente eleito, para seu estratega, acompanhado do chefe de gabinete Reince Priebus, responsável do Republican National Committee. Mas Trump equiparou-os em termos de poder. Kellyanne Conway, responsável da campanha de Trump, diz que os dois “complementam-se” e “têm ambos a coisa mais importante: o ouvido do chefe”. Sobre Bannon, considera-o “o general desta campanha” eleitoral.

“Conheço Steve Bannon há muito tempo”, disse Trump. “Se pensasse que ele era racista ou ‘alt-right’ ou qualquer uma das coisas que vocês [jornalistas] podem denominar, nem sequer pensaria em o contratar”.

Além de racista, Bannon foi acusado de supremacista e anti-judeu mas mesmo o seu crítico Ben Shapiro afirma não ter provas de que o seja realmente. Ao contrário do site “alt-right”, Shapiro não consegue ter a certeza de que o mesmo aconteça com Bannon. “Ele é um tipo esperto, não um ignorante”, diz.

Em 2013, Bannon era um “leninista”

Por exemplo, quando se olha para a equipa da Breitbart News – como fez a revista Mother Jones quando questionou se Bannon era racista – descobre-se que em nove pessoas (além de Bannon), estão um negro e duas mulheres. Ele considerou-se um “leninista”, no sentido em que “Lenine queria destruir o Estado e é também o meu objectivo”, disse em 2013. “Quero deitar tudo abaixo e destruir o actual ‘establishment'”. Em Agosto passado, afirmou não se lembrar destas declarações.

“Não sou um nacionalista branco, sou um nacionalista. Sou um nacionalista económico”, revelou à THR, que salienta como um dos temas preferidos de Bannon “a miopia dos media – que contam apenas a história que confirma a sua própria visão, que no final foi incapaz de ver um resultado alternativo e de fazer uma verdadeira avaliação de risco das variáveis políticas – reafirmando a própria miopia política do campo de Hillary Clinton”.

“A bolha dos media é o símbolo supremo do que há de errado neste país”, prossegue. “É apenas um círculo de pessoas a falarem sozinhas que não tem ideia do que está a acontecer”. Dá mesmo o exemplo da Fox News, detida por Rupert Murdoch, e apoiante do lado republicano: “eles erraram mais do que ninguém”, diz. “Rupert é um globalista e nunca entendeu Trump. Para ele, Trump é um radical”.

“Os globalistas evisceraram a classe trabalhadora americana e criaram uma classe média na Ásia”, disse à revista. “A questão agora é sobre os americanos que procuram não serem mais f*****s. Se conseguirmos, teremos 60% do voto branco e 40% do voto negro e hispânico e governaremos por 50 anos. Isto foi o que os democratas não perceberam. Eles estavam a conversar com estas pessoas com empresas com um valor de mercado de 9.000 milhões de dólares, empregando nove pessoas. Não é a realidade. Eles perderam de vista o que é o mundo”.

“Ele é um dos poucos ideólogos genuínos no círculo Trump. Tem uma ideia muito clara e coerente do que é o Trumpismo, talvez mais do que o próprio candidato”, afirmava a The New Republic, acentuando que o “movimento” de Bannon não visa “a eleição de apenas um homem, mas uma revolta mundial de diferentes grupos nacionalistas opondo-se a uma élite globalista”.

No âmbito do Breitbart News, Bannon cultivou ligações com partidos nacionalistas de países europeus. Estabeleceu relações no Reino Unido com o United Kingdom Independence Party (UKIP), cujo ex-líder Nigel Farage visitou rapidamente Trump após as eleições, em França (com a Frente Nacional, de Marine Le Pen, que elogia Trump), na Alemanha (com o Alternative for Germany ou AfD) ou na Holanda, com o Party for Freedom Party (PVV).

As “pessoas querem mais controlo do seu país”, dizia Bannon na Breitbart.com. “Elas têm muito orgulho nos seus países. Querem fronteiras. Querem soberania. Isso pode ser visto a acontecer na Ásia, na Europa, no Médio Oriente e nos Estados Unidos”.

“Bannon sabe que no jogo dos tronos, se ganha ou morre”

Numa estratégia de fornecer “factos” aos media, Bannon criou em 2012 o Government Accountability Institute (GAI), organização não lucrativa cujo presidente Peter Schweizer foi financiado para escrever o livro “Clinton Cash: The Untold Story of How and Why Foreign Governments and Businesses Helped Make Bill and Hillary Rich”.

O alegado objectivo do GAI é “investigar e expor o capitalismo amigo, o uso indevido do dinheiro dos contribuintes e outra corrupção governamental ou conduta ilegal”, mas serviu igualmente para atingir os opositores de Trump.

Embora não conste actualmente no site do GAI, uma declaração de impostos entregue em 2013 revela como Bannon era o “chairman” do instituto, que nesse ano chegou a comprar mais de 100 mil dólares de publicidade à BNN.

Sobre a sua criação, o estratega explicou à Bloomberg como “Peter e eu notámos que são os factos, não os rumores, que ressoam com os melhores jornalistas de investigação”. Em 2015, a mesma Bloomberg considerou-o o “operacional político mais perigoso da América“, que pretendia derrubar tanto a democrata Hillary Clinton (“Clinton Cash” foi editado em Maio de 2015) como o republicano Jeb Bush (opositor de Trump na corrida eleitoral).

O GAI foi responsável pela edição em Outubro desse ano de “Bush Bucks: How Public Service and Corporations Helped Make Jeb Rich”. “Não é tão cinematográfico quanto os Clintons, com os seus senhores da guerra e gangsters russos e todo esse elenco de bandidos”, analisou Bannon. Jeb Bush “é mais prosaico. É apenas caprichoso, amigo fraco do capitalismo”.

O ataque aos Bush é antigo. Relativamente à legislação para salvar a banca, aprovada por George W. Bush em 2008, considerou que “o resgate do governo ao sistema bancário foi um flagrante uso indevido de dólares dos contribuintes que não fez quase nada para ajudar os americanos comuns”. No geral, ele denomina os republicanos como “o partido dos doadores de Davos”, numa referência à cidade suíça que acolhe todos os anos o Fórum Económico Mundial, criticando-os por considerarem que os votantes de Trump são “hobbits” e “camponeses com forquilhas”.

Por tudo isto, Bannon estará sob enorme escrutínio de diferentes partes, políticas, mediáticas ou das associações de direitos cívicos. Conseguirá Trump protegê-lo?

Shapiro, próximo do estratega durante vários anos, é cáustico sobre o ex-patrão: “muitos antigos empregados do Breitbart News têm medo” dele, é “uma figura sinistra” e “vingativa, desagradável, infame por insultar verbalmente supostos amigos e ameaçar inimigos. Bannon é uma versão mais inteligente de Trump” mas que, além de se auto-promover de forma agressiva, aplaude “nomes maiores” e depois usa-os “para subir até ao seu próximo destino”.

Bannon “tentará arruinar qualquer um que impeça a sua ambição sem fim, e usará alguém maior do que ele – por exemplo, Donald Trump – para chegar onde quer ir. Bannon sabe que no jogo dos tronos, se ganha ou morre. E ele não pretende certamente morrer. Ele vai matar todos os outros antes de partir”.

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